Eu e o Álvaro no pátio da casa de Coimbra. Eu tinha três anos e não largava a mão dele. A figueira ainda lá está.
Álvaro Ferreira Costa
Coimbra Lisboa
Sofia Costa Tavares, Maria Silva Almeida e Ana Almeida Costa e mais 17 pessoas participam neste memorial.
Sofia Costa Tavares, Maria Silva Almeida e Ana Almeida Costa e mais 17 pessoas participam neste memorial.
12 de março de 1942
Coimbra
No pátio da nossa casa em Coimbra havia uma figueira que parecia maior do que a casa. O Álvaro subia primeiro. Eu subia atrás, sempre a prometer que não ia chamar a mãe se ficasse preso.
Ele escolhia os figos bons e deixava-me pensar que tinha sido eu a encontrá-los. Só percebi isso muitos anos depois. O meu irmão mais velho já era assim em pequeno: fazia o trabalho e deixava os outros ficarem com a vitória.
Escola Industrial de Coimbra, curso de carpintaria e marcenaria. O avô é o do meio, debruçado sobre a plaina. Contava que ficava depois das aulas a perguntar como se calculava a curva de uma cadeira.
Conheci o Álvaro no quartel. Eu vinha de Évora, ele de Coimbra. Na primeira semana reparei que ele dobrava tudo como se estivesse numa loja: camisas, calças e até meias. Eu gozei com ele, claro.
Ele olhou para mim e disse: "Quando há pouca liberdade, ao menos mando na minha gaveta."
Ficámos amigos nesse dia.
Conheci o Álvaro num almoço de anos de uma prima. Chamaram-no para dançar e ele dançou como quem media tábuas, atento demais ao passo seguinte. Eu ri-me. Ele perguntou porquê. Eu disse-lhe a verdade.
Ficou sério um bocado e depois respondeu: "Então ensine-me." Ensinei. Demorou uns 56 anos.
Eu tinha 17 anos e a máquina do meu pai. A fotografia do casamento do Álvaro e da Maria que toda a família conhece foi quase por acaso. O fotógrafo contratado estava a arrumar as coisas. Eu vi os dois à porta de Santa Cruz, cansados e a rir de qualquer coisa pequena.
Levantei a máquina e disparei.
Gosto daquela fotografia porque não parece pose. Parece começo.
O Álvaro veio à vindima pela primeira vez em 1973. Trazia botas novas e mãos de oficina, não de vinha. Ao fim do primeiro dia tinha bolhas. Ao fim do segundo dia já sabia onde pisar.
Voltou quase todos os outonos. Não era homem de grandes falas, e isso no Douro é uma qualidade. Trabalhava, comia, bebia um copo, e ficava a olhar para as encostas como quem reconhece uma pessoa.
Quarenta vindimas deixam marca numa família.
A casa da Mouraria. Comprámo-la em mau estado e ele foi arranjando por partes: uma janela num fim de semana, um degrau no outro, uma estante antes do Natal. Na segunda fotografia está a Ana, nas escadas da rua, à espera que o pai descesse do escadote.
Nunca saímos daqui.
O primeiro retrato da família completa, pouco depois de a Marta nascer. O Álvaro pediu-me para tirar só uma. Tirei seis. Esta é a única em que o Rui está quieto.
A oficina da Rua da Madalena, no ano em que abriu. A placa dizia "Álvaro Costa, carpintaria", mas muita gente entrava só para pedir conselhos: uma dobradiça, uma gaveta presa, uma cadeira partida. Ele ouvia, perguntava duas coisas, e encontrava maneira de resolver.
O som da minha infância é o rádio da oficina do meu pai. Estava sempre um pouco fora de estação. Fado, relatos de futebol, notícias, música brasileira, tudo misturado com martelos e serras.
Quando eu tinha seis anos, ele deixava-me sentar num banco alto e escolher uma música antes de começar a trabalhar. Eu escolhia sempre a mesma. Ele fingia que reclamava, mas nunca mudava de estação antes do fim.
Ainda hoje, se ouço uma canção antiga com chiadeira, vejo-o de costas, a medir uma tábua com o lápis atrás da orelha.
A primeira porta de armário que fiz sozinho ficou quase boa. Eu estava orgulhoso. O senhor Álvaro olhou para ela, passou a mão numa quina e disse: "Quase é bom para pressa. Não para madeira."
Mandou-me fazer outra. Fiquei furioso. Fiz outra.
Anos depois, quando tive aprendizes meus, percebi que ele não estava a castigar. Estava a ensinar-me a não assinar trabalho que eu próprio não respeitava.
Fui com o meu pai ao Douro pela primeira vez quando tinha 15 anos. Achei que ia ser uma viagem divertida. Afinal, passei três dias com frio de manhã, calor à tarde, mãos pegajosas, e adultos a falar de coisas que eu ainda não entendia.
Na segunda noite, sentei-me ao lado dele no muro da quinta. Estava escuro, mas ouvíamos as pessoas na adega. Ele ficou muito tempo calado. Depois disse: "Quando uma família volta ao mesmo lugar todos os anos, esse lugar começa a guardar-nos também."
Eu era adolescente e fingi que não achei bonito. Mas nunca esqueci.
Quando abri o café, tinha mais vontade do que dinheiro. Pedi ao senhor Álvaro umas prateleiras simples para trás do balcão. Ele veio medir, fez poucas perguntas, e entregou uma coisa muito melhor do que eu podia pagar.
Eu disse-lhe isso. Ele respondeu: "Pague quando o café der para pagar."
Paguei em três vezes. As prateleiras ficaram 36 anos.
Nas férias da escola eu ia para a oficina. Ele dava-me tarefas pequenas: lixar, varrer, segurar. Só mais tarde percebi que estava a aprender a olhar para um espaço como ele olhava: o que se usa, o que se toca, onde cai a luz.
Na véspera de Natal de 1987, o Álvaro prometeu que a mesa nova ficava pronta a tempo do jantar. Eu disse-lhe que não inventasse. Já tínhamos uma mesa, e a casa estava cheia de coisas para fazer. Ele respondeu: "Esta vai caber toda a gente."
Às seis da tarde ainda estava na oficina, de mangas arregaçadas, a lixar as quinas como se ninguém estivesse à espera. Às oito, entrou pela porta com a mesa e com o Rui agarrado a uma perna, a Ana a outra, e a Marta a segurar os guardanapos. Jantámos tarde. Claro que jantámos tarde. Mas sentámo-nos todos.
Ainda hoje, quando alguém se encosta naquela mesa, vejo as mãos dele no tampo. Não era só uma mesa. Era a maneira dele dizer: "Fiquem."
O armário da minha costura foi feito pelo Álvaro. Eu tinha pedido uma coisa simples. Ele apareceu com gavetas para botões, linhas, moldes, tesouras, fitas, e ainda um espaço estreito para guardar revistas.
Disse-me: "Quem trabalha com as mãos precisa de respeito pelas mãos."
Uso-o até hoje.
Quando comecei arquitetura, ele ofereceu-me uma régua azul que usava na oficina desde os anos 70. Disse que já não era perfeita, mas que eu também não precisava de coisas perfeitas para começar.
Durante anos usei aquela régua para desenhar plantas, móveis, janelas. Mais tarde percebi que ele não me tinha dado uma ferramenta. Tinha-me dado licença para experimentar.
Levei-lhe seis cadeiras que rangiam como uma banda desafinada. Ele disse que conseguia arranjar quatro. Arranjou as seis, mas deixou uma com um rangido pequeno.
Perguntei porquê. Disse: "Para saberes que ainda estão vivas."
Era uma piada, mas também era verdade. O Álvaro gostava das marcas do tempo.
O meu pai não era pescador, mas gostava da ideia de ser pescador. Em 1993 alugámos um barco pequeno em Sesimbra. Ele levou uma geleira, duas canas, pão com queijo, e uma confiança completamente injustificada.
Ao fim de uma hora o motor morreu. Eu entrei em pânico. Ele abriu a geleira, tirou uma sandes, e disse: "Então agora pescamos devagar." Ficámos três horas à deriva, até aparecer ajuda. Quando o barco da capitania se aproximou, o meu pai apanhou finalmente um robalo minúsculo.
Durante anos contou a história como se tivesse planeado tudo.
Antes de eu ir estudar música, o pai fez-me uma estante estreita para as partituras. Eu queria uma coisa moderna, branca, comprada numa loja. Ele trouxe madeira de castanho e passou dias a desenhar divisórias.
Na altura achei pesada. Hoje é a peça mais bonita da minha sala. Cada marca tem uma história: uma mudança de casa, uma aula preparada tarde, uma chávena de café esquecida.
Ele dizia que as coisas boas tinham de aguentar vida.
O balcão da minha mercearia começou a abanar numa segunda-feira. Eu disse ao Álvaro que pagava o arranjo. Ele apareceu na terça com ferramentas, ficou duas horas, e no fim só aceitou um café.
Disse-me: "Se o balcão cai, a rua fica sem conversa."
Tinha razão. Ali pousavam sacos, contas, novidades, tristezas pequenas, receitas e chaves esquecidas. Ele não arranjou só um balcão. Segurou um ponto da rua.
Uma rutura no prédio inundou o café. As mesas ficaram inchadas, o chão levantou, e eu chorei no meio da sala. O senhor Álvaro apareceu com o Luís, olhou em volta e disse: "Primeiro salvamos o que ainda quer ficar."
Arranjou quatro mesas. Duas não deram. Mas aquelas quatro pareciam uma promessa.
Quando a Sofia nasceu, tirei uma fotografia do Álvaro com ela ao colo. Ele segurava-a como se ela fosse feita de vidro e futuro. A Maria estava ao lado, a dizer-lhe para relaxar os ombros.
Ele respondeu: "Estou relaxado por dentro."
Na fotografia, vê-se que era verdade.
As prateleiras da adega estavam cansadas. Eu disse que comprava umas novas. O Álvaro olhou para mim como se eu tivesse ofendido um parente.
Fez prateleiras de madeira grossa, simples, fortes. Ainda lá estão. Aguentam garrafas, caixas, pó e conversas.
Quando passo por elas, lembro-me sempre dele a bater na madeira e a dizer: "Isto agora dura mais do que nós."
No Santo António, faltavam cadeiras para o jantar da rua. O Álvaro apareceu com oito cadeiras diferentes: uma verde, duas de cozinha, três de palhinha, uma dobrável e uma que parecia ter vindo de uma repartição pública.
Quando alguém gozou com a mistura, ele respondeu: "Sentadas, são todas iguais."
Foi muito Álvaro.
No almoço da reforma, levei-lhe um lápis de carpinteiro novo. Era uma brincadeira porque ele passava a vida com o lápis atrás da orelha e depois perguntava onde estava.
Ele riu-se, pôs o lápis no sítio de sempre, e disse: "Agora já posso reformar-me. Tenho ferramenta."
Não se reformou coisa nenhuma. Ainda me corrigiu uma porta em 2018.
Tínhamos uma sala comunitária com bancos gastos, alguns já perigosos. Perguntei ao Álvaro se conhecia alguém que pudesse ajudar. Ele disse: "Conheço as minhas mãos."
Durante duas semanas veio ao fim da tarde. Não fez anúncio, não pediu lista de agradecimentos, não quis fotografia. Arranjou os bancos e ainda deixou dois extra que tinha feito com madeira que sobrou.
No meu oitavo aniversário, o avô deu-me uma caixa de ferramentas pequena. Não era de brincar. Tinha martelo, chave de fendas, fita métrica, lápis, lixa, e um aviso: "Ferramenta a sério pede cabeça a sério."
Passei o verão a tentar arranjar coisas que não estavam partidas. Ele deixava, até certo ponto. Depois sentava-se ao meu lado e dizia: "Antes de mexer, olha."
Essa foi talvez a primeira lição de engenharia que tive.
A casa de bonecas que o avô me fez tinha portas que abriam, janelas com cortinas, e uma escada minúscula que ninguém via se eu não apontasse. Ele levou meses a fazê-la. Eu descobri anos depois que tinha usado restos de madeira da oficina e pedaços de tecido da avó Maria.
Era pequena, mas tinha mais cuidado do que muitas casas grandes.
No 7.º ano tive de fazer um trabalho sobre "lugares importantes da família". O avô Álvaro sentou-se comigo à mesa da cozinha e desenhou Coimbra de memória. Não era um mapa certo. As ruas não tinham proporção nenhuma. Mas tinha tudo o que interessava: a casa da infância, a escola, a oficina do pai, o largo onde viu a avó Maria pela primeira vez.
Quando eu disse que a professora talvez quisesse um mapa mais correto, ele respondeu: "Então faz dois. Um para ela e um para nós."
Guardei o nosso.
Depois de um inverno difícil, a porta pequena da capela inchou e deixou de fechar bem. O Álvaro veio ver. Passou a mão pela madeira e disse: "Também nós ficamos difíceis com a humidade."
Rimo-nos. Depois ele tirou medidas, voltou com ferramentas, e deixou a porta a fechar devagar e certa.
Havia nele uma forma simples de respeito pelas coisas usadas por todos.
Durante muito tempo achei que o meu avô arranjava coisas porque era poupado. Uma torradeira, uma cadeira, uma gaveta, o trinco da janela. Nada ia para o lixo sem passar primeiro pela mesa dele.
Só percebi mais tarde que aquilo era uma forma de atenção. Ele olhava para uma coisa partida e perguntava: "O que é que ainda dá para fazer aqui?" Fazia a mesma pergunta às pessoas, embora nunca a dissesse em voz alta.
Quando eu estava perdida no primeiro ano da faculdade, ele não me deu conselhos. Arranjou-me uma secretária antiga, pôs-lhe uma gaveta nova, e deixou-a no meu quarto. "Para trabalhares melhor", disse.
Era a maneira dele de me lembrar que eu também ainda dava para arranjar.
Eu pedi ao avô a receita da sopa que ele fazia depois das vindimas. Ele disse: "Isso não tem receita." Eu insisti. Ele respondeu: "Então escreve: começa com fome."
Fiquei irritada, claro. Depois percebi que ele cozinhava como trabalhava a madeira. Tocava, provava, esperava, corrigia. Não media tudo, mas reparava em tudo.
Mais tarde tentei escrever a receita. Ficou assim: feijão, couve, batata, azeite, tempo, e alguém na cozinha a contar uma história.
Comecei a apontar frases do avô num caderno pequeno. A primeira foi: "Pressa faz pó." A segunda: "A madeira não perdoa vaidade." A terceira: "Não compliques antes de perceber."
Ele achava graça, mas fingia que não. Um dia viu-me escrever e disse: "Não me ponhas mais inteligente do que eu sou."
Não pus. Não era preciso.
Fui fotografar a oficina numa tarde de maio. O avô abriu a janela, encostou-se à bancada e disse que não havia nada ali que valesse uma fotografia.
Havia. A plaina marcada pelo uso, os lápis curtos, a caixa dos pregos, o rádio velho, a luz a cair no chão. Tirei 83 fotografias.
Ele só gostou de uma. Era a das mãos dele.
Esta fotografia demorou 14 minutos a tirar. O Miguel queria ajustar a luz, a Beatriz estava a rir, a avó Maria dizia que a sopa arrefecia, e o avô Álvaro ficou sentado no meio, com aquela paciência de quem já tinha visto muitas confusões parecidas.
Quando finalmente carreguei no botão, ele olhou para a câmara como se estivesse a olhar para cada um de nós. É a fotografia que eu mostraria a alguém que nunca o conheceu.
4 de janeiro de 2024
Lisboa
Eu e o Álvaro no pátio da casa de Coimbra. Eu tinha três anos e não largava a mão dele. A figueira ainda lá está.
No pátio da nossa casa em Coimbra havia uma figueira que parecia maior do que a casa. O Álvaro subia primeiro. Eu subia atrás, sempre a prometer que não ia chamar a mãe se ficasse preso.
Ele escolhia os figos bons e deixava-me pensar que tinha sido eu a encontrá-los. Só percebi isso muitos anos depois. O meu irmão mais velho já era assim em pequeno: fazia o trabalho e deixava os outros ficarem com a vitória.
Escola Industrial de Coimbra, curso de carpintaria e marcenaria. O avô é o do meio, debruçado sobre a plaina. Contava que ficava depois das aulas a perguntar como se calculava a curva de uma cadeira.
Conheci o Álvaro no quartel. Eu vinha de Évora, ele de Coimbra. Na primeira semana reparei que ele dobrava tudo como se estivesse numa loja: camisas, calças e até meias. Eu gozei com ele, claro.
Ele olhou para mim e disse: "Quando há pouca liberdade, ao menos mando na minha gaveta."
Ficámos amigos nesse dia.
Conheci o Álvaro num almoço de anos de uma prima. Chamaram-no para dançar e ele dançou como quem media tábuas, atento demais ao passo seguinte. Eu ri-me. Ele perguntou porquê. Eu disse-lhe a verdade.
Ficou sério um bocado e depois respondeu: "Então ensine-me." Ensinei. Demorou uns 56 anos.
Eu tinha 17 anos e a máquina do meu pai. A fotografia do casamento do Álvaro e da Maria que toda a família conhece foi quase por acaso. O fotógrafo contratado estava a arrumar as coisas. Eu vi os dois à porta de Santa Cruz, cansados e a rir de qualquer coisa pequena.
Levantei a máquina e disparei.
Gosto daquela fotografia porque não parece pose. Parece começo.
O Álvaro veio à vindima pela primeira vez em 1973. Trazia botas novas e mãos de oficina, não de vinha. Ao fim do primeiro dia tinha bolhas. Ao fim do segundo dia já sabia onde pisar.
Voltou quase todos os outonos. Não era homem de grandes falas, e isso no Douro é uma qualidade. Trabalhava, comia, bebia um copo, e ficava a olhar para as encostas como quem reconhece uma pessoa.
Quarenta vindimas deixam marca numa família.
A casa da Mouraria. Comprámo-la em mau estado e ele foi arranjando por partes: uma janela num fim de semana, um degrau no outro, uma estante antes do Natal. Na segunda fotografia está a Ana, nas escadas da rua, à espera que o pai descesse do escadote.
Nunca saímos daqui.
O primeiro retrato da família completa, pouco depois de a Marta nascer. O Álvaro pediu-me para tirar só uma. Tirei seis. Esta é a única em que o Rui está quieto.
A oficina da Rua da Madalena, no ano em que abriu. A placa dizia "Álvaro Costa, carpintaria", mas muita gente entrava só para pedir conselhos: uma dobradiça, uma gaveta presa, uma cadeira partida. Ele ouvia, perguntava duas coisas, e encontrava maneira de resolver.
O som da minha infância é o rádio da oficina do meu pai. Estava sempre um pouco fora de estação. Fado, relatos de futebol, notícias, música brasileira, tudo misturado com martelos e serras.
Quando eu tinha seis anos, ele deixava-me sentar num banco alto e escolher uma música antes de começar a trabalhar. Eu escolhia sempre a mesma. Ele fingia que reclamava, mas nunca mudava de estação antes do fim.
Ainda hoje, se ouço uma canção antiga com chiadeira, vejo-o de costas, a medir uma tábua com o lápis atrás da orelha.
A primeira porta de armário que fiz sozinho ficou quase boa. Eu estava orgulhoso. O senhor Álvaro olhou para ela, passou a mão numa quina e disse: "Quase é bom para pressa. Não para madeira."
Mandou-me fazer outra. Fiquei furioso. Fiz outra.
Anos depois, quando tive aprendizes meus, percebi que ele não estava a castigar. Estava a ensinar-me a não assinar trabalho que eu próprio não respeitava.
Quando abri o café, tinha mais vontade do que dinheiro. Pedi ao senhor Álvaro umas prateleiras simples para trás do balcão. Ele veio medir, fez poucas perguntas, e entregou uma coisa muito melhor do que eu podia pagar.
Eu disse-lhe isso. Ele respondeu: "Pague quando o café der para pagar."
Paguei em três vezes. As prateleiras ficaram 36 anos.
Fui com o meu pai ao Douro pela primeira vez quando tinha 15 anos. Achei que ia ser uma viagem divertida. Afinal, passei três dias com frio de manhã, calor à tarde, mãos pegajosas, e adultos a falar de coisas que eu ainda não entendia.
Na segunda noite, sentei-me ao lado dele no muro da quinta. Estava escuro, mas ouvíamos as pessoas na adega. Ele ficou muito tempo calado. Depois disse: "Quando uma família volta ao mesmo lugar todos os anos, esse lugar começa a guardar-nos também."
Eu era adolescente e fingi que não achei bonito. Mas nunca esqueci.
Nas férias da escola eu ia para a oficina. Ele dava-me tarefas pequenas: lixar, varrer, segurar. Só mais tarde percebi que estava a aprender a olhar para um espaço como ele olhava: o que se usa, o que se toca, onde cai a luz.
Na véspera de Natal de 1987, o Álvaro prometeu que a mesa nova ficava pronta a tempo do jantar. Eu disse-lhe que não inventasse. Já tínhamos uma mesa, e a casa estava cheia de coisas para fazer. Ele respondeu: "Esta vai caber toda a gente."
Às seis da tarde ainda estava na oficina, de mangas arregaçadas, a lixar as quinas como se ninguém estivesse à espera. Às oito, entrou pela porta com a mesa e com o Rui agarrado a uma perna, a Ana a outra, e a Marta a segurar os guardanapos. Jantámos tarde. Claro que jantámos tarde. Mas sentámo-nos todos.
Ainda hoje, quando alguém se encosta naquela mesa, vejo as mãos dele no tampo. Não era só uma mesa. Era a maneira dele dizer: "Fiquem."
O armário da minha costura foi feito pelo Álvaro. Eu tinha pedido uma coisa simples. Ele apareceu com gavetas para botões, linhas, moldes, tesouras, fitas, e ainda um espaço estreito para guardar revistas.
Disse-me: "Quem trabalha com as mãos precisa de respeito pelas mãos."
Uso-o até hoje.
Quando comecei arquitetura, ele ofereceu-me uma régua azul que usava na oficina desde os anos 70. Disse que já não era perfeita, mas que eu também não precisava de coisas perfeitas para começar.
Durante anos usei aquela régua para desenhar plantas, móveis, janelas. Mais tarde percebi que ele não me tinha dado uma ferramenta. Tinha-me dado licença para experimentar.
Levei-lhe seis cadeiras que rangiam como uma banda desafinada. Ele disse que conseguia arranjar quatro. Arranjou as seis, mas deixou uma com um rangido pequeno.
Perguntei porquê. Disse: "Para saberes que ainda estão vivas."
Era uma piada, mas também era verdade. O Álvaro gostava das marcas do tempo.
O meu pai não era pescador, mas gostava da ideia de ser pescador. Em 1993 alugámos um barco pequeno em Sesimbra. Ele levou uma geleira, duas canas, pão com queijo, e uma confiança completamente injustificada.
Ao fim de uma hora o motor morreu. Eu entrei em pânico. Ele abriu a geleira, tirou uma sandes, e disse: "Então agora pescamos devagar." Ficámos três horas à deriva, até aparecer ajuda. Quando o barco da capitania se aproximou, o meu pai apanhou finalmente um robalo minúsculo.
Durante anos contou a história como se tivesse planeado tudo.
Antes de eu ir estudar música, o pai fez-me uma estante estreita para as partituras. Eu queria uma coisa moderna, branca, comprada numa loja. Ele trouxe madeira de castanho e passou dias a desenhar divisórias.
Na altura achei pesada. Hoje é a peça mais bonita da minha sala. Cada marca tem uma história: uma mudança de casa, uma aula preparada tarde, uma chávena de café esquecida.
Ele dizia que as coisas boas tinham de aguentar vida.
O balcão da minha mercearia começou a abanar numa segunda-feira. Eu disse ao Álvaro que pagava o arranjo. Ele apareceu na terça com ferramentas, ficou duas horas, e no fim só aceitou um café.
Disse-me: "Se o balcão cai, a rua fica sem conversa."
Tinha razão. Ali pousavam sacos, contas, novidades, tristezas pequenas, receitas e chaves esquecidas. Ele não arranjou só um balcão. Segurou um ponto da rua.
Uma rutura no prédio inundou o café. As mesas ficaram inchadas, o chão levantou, e eu chorei no meio da sala. O senhor Álvaro apareceu com o Luís, olhou em volta e disse: "Primeiro salvamos o que ainda quer ficar."
Arranjou quatro mesas. Duas não deram. Mas aquelas quatro pareciam uma promessa.
Quando a Sofia nasceu, tirei uma fotografia do Álvaro com ela ao colo. Ele segurava-a como se ela fosse feita de vidro e futuro. A Maria estava ao lado, a dizer-lhe para relaxar os ombros.
Ele respondeu: "Estou relaxado por dentro."
Na fotografia, vê-se que era verdade.
As prateleiras da adega estavam cansadas. Eu disse que comprava umas novas. O Álvaro olhou para mim como se eu tivesse ofendido um parente.
Fez prateleiras de madeira grossa, simples, fortes. Ainda lá estão. Aguentam garrafas, caixas, pó e conversas.
Quando passo por elas, lembro-me sempre dele a bater na madeira e a dizer: "Isto agora dura mais do que nós."
No Santo António, faltavam cadeiras para o jantar da rua. O Álvaro apareceu com oito cadeiras diferentes: uma verde, duas de cozinha, três de palhinha, uma dobrável e uma que parecia ter vindo de uma repartição pública.
Quando alguém gozou com a mistura, ele respondeu: "Sentadas, são todas iguais."
Foi muito Álvaro.
No almoço da reforma, levei-lhe um lápis de carpinteiro novo. Era uma brincadeira porque ele passava a vida com o lápis atrás da orelha e depois perguntava onde estava.
Ele riu-se, pôs o lápis no sítio de sempre, e disse: "Agora já posso reformar-me. Tenho ferramenta."
Não se reformou coisa nenhuma. Ainda me corrigiu uma porta em 2018.
Tínhamos uma sala comunitária com bancos gastos, alguns já perigosos. Perguntei ao Álvaro se conhecia alguém que pudesse ajudar. Ele disse: "Conheço as minhas mãos."
Durante duas semanas veio ao fim da tarde. Não fez anúncio, não pediu lista de agradecimentos, não quis fotografia. Arranjou os bancos e ainda deixou dois extra que tinha feito com madeira que sobrou.
No meu oitavo aniversário, o avô deu-me uma caixa de ferramentas pequena. Não era de brincar. Tinha martelo, chave de fendas, fita métrica, lápis, lixa, e um aviso: "Ferramenta a sério pede cabeça a sério."
Passei o verão a tentar arranjar coisas que não estavam partidas. Ele deixava, até certo ponto. Depois sentava-se ao meu lado e dizia: "Antes de mexer, olha."
Essa foi talvez a primeira lição de engenharia que tive.
A casa de bonecas que o avô me fez tinha portas que abriam, janelas com cortinas, e uma escada minúscula que ninguém via se eu não apontasse. Ele levou meses a fazê-la. Eu descobri anos depois que tinha usado restos de madeira da oficina e pedaços de tecido da avó Maria.
Era pequena, mas tinha mais cuidado do que muitas casas grandes.
No 7.º ano tive de fazer um trabalho sobre "lugares importantes da família". O avô Álvaro sentou-se comigo à mesa da cozinha e desenhou Coimbra de memória. Não era um mapa certo. As ruas não tinham proporção nenhuma. Mas tinha tudo o que interessava: a casa da infância, a escola, a oficina do pai, o largo onde viu a avó Maria pela primeira vez.
Quando eu disse que a professora talvez quisesse um mapa mais correto, ele respondeu: "Então faz dois. Um para ela e um para nós."
Guardei o nosso.
Depois de um inverno difícil, a porta pequena da capela inchou e deixou de fechar bem. O Álvaro veio ver. Passou a mão pela madeira e disse: "Também nós ficamos difíceis com a humidade."
Rimo-nos. Depois ele tirou medidas, voltou com ferramentas, e deixou a porta a fechar devagar e certa.
Havia nele uma forma simples de respeito pelas coisas usadas por todos.
Durante muito tempo achei que o meu avô arranjava coisas porque era poupado. Uma torradeira, uma cadeira, uma gaveta, o trinco da janela. Nada ia para o lixo sem passar primeiro pela mesa dele.
Só percebi mais tarde que aquilo era uma forma de atenção. Ele olhava para uma coisa partida e perguntava: "O que é que ainda dá para fazer aqui?" Fazia a mesma pergunta às pessoas, embora nunca a dissesse em voz alta.
Quando eu estava perdida no primeiro ano da faculdade, ele não me deu conselhos. Arranjou-me uma secretária antiga, pôs-lhe uma gaveta nova, e deixou-a no meu quarto. "Para trabalhares melhor", disse.
Era a maneira dele de me lembrar que eu também ainda dava para arranjar.
Eu pedi ao avô a receita da sopa que ele fazia depois das vindimas. Ele disse: "Isso não tem receita." Eu insisti. Ele respondeu: "Então escreve: começa com fome."
Fiquei irritada, claro. Depois percebi que ele cozinhava como trabalhava a madeira. Tocava, provava, esperava, corrigia. Não media tudo, mas reparava em tudo.
Mais tarde tentei escrever a receita. Ficou assim: feijão, couve, batata, azeite, tempo, e alguém na cozinha a contar uma história.
Comecei a apontar frases do avô num caderno pequeno. A primeira foi: "Pressa faz pó." A segunda: "A madeira não perdoa vaidade." A terceira: "Não compliques antes de perceber."
Ele achava graça, mas fingia que não. Um dia viu-me escrever e disse: "Não me ponhas mais inteligente do que eu sou."
Não pus. Não era preciso.
Fui fotografar a oficina numa tarde de maio. O avô abriu a janela, encostou-se à bancada e disse que não havia nada ali que valesse uma fotografia.
Havia. A plaina marcada pelo uso, os lápis curtos, a caixa dos pregos, o rádio velho, a luz a cair no chão. Tirei 83 fotografias.
Ele só gostou de uma. Era a das mãos dele.
Esta fotografia demorou 14 minutos a tirar. O Miguel queria ajustar a luz, a Beatriz estava a rir, a avó Maria dizia que a sopa arrefecia, e o avô Álvaro ficou sentado no meio, com aquela paciência de quem já tinha visto muitas confusões parecidas.
Quando finalmente carreguei no botão, ele olhou para a câmara como se estivesse a olhar para cada um de nós. É a fotografia que eu mostraria a alguém que nunca o conheceu.
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Sofia Costa Tavares
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Maria Silva Almeida
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Teresa Ferreira Costa
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Ana Almeida Costa
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Leonor Costa Brito
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Marta Almeida Costa
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Isabel Matos
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Rui Almeida Costa
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Carolina Costa Brito
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Tiago Costa Tavares
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Miguel Pereira Costa
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Helena Marques
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Maria Silva Almeida
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Sofia Costa Tavares
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Teresa Ferreira Costa
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Ana Almeida Costa
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Rui Almeida Costa
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Marta Almeida Costa
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Leonor Costa Brito
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Carolina Costa Brito
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Manuel Guerreiro
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Maria Silva Almeida
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Ana Almeida Costa
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João Ferreira Costa
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Tiago Costa Tavares
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Joaquim Nunes
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Luís Machado
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Rui Almeida Costa
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Leonor Costa Brito
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Maria Silva Almeida
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Sofia Costa Tavares
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Rui Almeida Costa
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Ana Almeida Costa
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João Ferreira Costa
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Miguel Pereira Costa
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Tiago Costa Tavares
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Marta Almeida Costa
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Leonor Costa Brito
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Beatriz Pereira Costa
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Carolina Costa Brito
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Teresa Ferreira Costa
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Luís Machado
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Sofia Costa Tavares
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Ana Almeida Costa
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Rui Almeida Costa
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Marta Almeida Costa
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Tiago Costa Tavares
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Leonor Costa Brito
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Beatriz Pereira Costa
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Miguel Pereira Costa
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Carolina Costa Brito
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Isabel Matos
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Teresa Ferreira Costa
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João Ferreira Costa
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Helena Marques
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Rosa Pires
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Maria Silva Almeida
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Sofia Costa Tavares
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Ana Almeida Costa
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Rui Almeida Costa
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Marta Almeida Costa
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Tiago Costa Tavares
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Leonor Costa Brito
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Beatriz Pereira Costa
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Miguel Pereira Costa
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Carolina Costa Brito
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João Ferreira Costa
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Teresa Ferreira Costa
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Manuel Guerreiro
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Helena Marques
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Ernesto Valente
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Rosa Pires
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Padre António Ramos
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Joaquim Nunes
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Maria Silva Almeida
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Ana Almeida Costa
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Rui Almeida Costa
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Sofia Costa Tavares
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Tiago Costa Tavares
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Beatriz Pereira Costa
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Marta Almeida Costa
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João Ferreira Costa
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Leonor Costa Brito
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Miguel Pereira Costa
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Isabel Matos
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Ana Almeida Costa
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Sofia Costa Tavares
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Rui Almeida Costa
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Marta Almeida Costa
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Helena Marques
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Leonor Costa Brito
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Tiago Costa Tavares
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Beatriz Pereira Costa
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Miguel Pereira Costa
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Carolina Costa Brito
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Padre António Ramos
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Isabel Matos
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João Ferreira Costa
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Maria Silva Almeida
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Marta Almeida Costa
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Ana Almeida Costa
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Rui Almeida Costa
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Sofia Costa Tavares
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Leonor Costa Brito
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Carolina Costa Brito
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Beatriz Pereira Costa
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Luís Machado
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Joaquim Nunes
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Rosa Pires
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Maria Silva Almeida
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Sofia Costa Tavares
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Tiago Costa Tavares
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Rui Almeida Costa
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Miguel Pereira Costa
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Helena Marques
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Maria Silva Almeida
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Ana Almeida Costa
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Rui Almeida Costa
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Sofia Costa Tavares
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Leonor Costa Brito
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Carolina Costa Brito
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Joaquim Nunes
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Miguel Pereira Costa
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Tiago Costa Tavares
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Beatriz Pereira Costa
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Tiago Costa Tavares
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Luís Machado
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Ana Almeida Costa
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Sofia Costa Tavares
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Rui Almeida Costa
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Maria Silva Almeida
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Maria Silva Almeida
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Sofia Costa Tavares
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Luís Machado
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Helena Marques
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Ana Almeida Costa
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Rui Almeida Costa
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Isabel Matos
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Joaquim Nunes
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Maria Silva Almeida
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Sofia Costa Tavares
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Rui Almeida Costa
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Marta Almeida Costa
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Ernesto Valente
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Tiago Costa Tavares
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Leonor Costa Brito
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Beatriz Pereira Costa
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Miguel Pereira Costa
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Carolina Costa Brito
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Isabel Matos
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Teresa Ferreira Costa
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João Ferreira Costa
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Helena Marques
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Manuel Guerreiro
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Padre António Ramos
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Joaquim Nunes
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Luís Machado
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Maria Silva Almeida
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Tiago Costa Tavares
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Sofia Costa Tavares
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Miguel Pereira Costa
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Marta Almeida Costa
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Ana Almeida Costa
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Rui Almeida Costa
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Marta Almeida Costa
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Tiago Costa Tavares
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Carolina Costa Brito
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Maria Silva Almeida
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Tiago Costa Tavares
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Leonor Costa Brito
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Rui Almeida Costa
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Maria Silva Almeida
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Rui Almeida Costa
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Sofia Costa Tavares
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Marta Almeida Costa
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Tiago Costa Tavares
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Miguel Pereira Costa
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Ernesto Valente
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Rosa Pires
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Isabel Matos
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Padre António Ramos
Eu ainda não era nascida, mas conheço esta fotografia de cor. A mãe tinha-a na cómoda.
Tio João, levas-me lá outra vez na primavera? Quero ver a figueira.
Levo. Mas não subimos.